E eu me levanto para contar uma história, Espaço Cultural Palacio Pereda, Buenos Aires, Argentina
2026

Curadoria: César Oiticica Filho

Uma obra feita de verdade: essa é a premissa que Paula Parisot traz para sua produção atual, que integra esta exposição. Num mundo onde o conceito de pós-verdade cresce e aparece, essa obra desponta como algo urgente e que precisa ser dito — ou, melhor, gritado.

A arte, esse fenômeno que constrói a história desde sempre, das pinturas rupestres até os dias de hoje, afirma-se aqui como o grito de uma mulher silenciada, que precisa se afirmar e se afirma através de sua arte, lugar onde a censura não deve — e, cada dia mais, não pode — chegar.
As mulheres aparecem cada vez mais nesse lugar, não por acaso, mas como parte de um processo histórico de rebelião contra a “machulência” (@jaque.conserta), depois de milênios de luta, mas principalmente a partir dos movimentos feministas do último século. Hoje, toda a história da arte precisa ser revista para incluir aquelas que ficaram silenciadas.
Paula Parisot parte de uma história pessoal e particular para dar esse berro que ecoa para adiante, mas que já é eco de todas essas histórias de artistas silenciadas — inclusive minha mãe —, que formam essa força que empurra, mais uma vez, essa rebelião delicada, essa revolução doce e amorosa, mas não menos potente.
Sua história, feita de tragédias familiares, fala desse ponto de vista particular, que traz, ao mesmo tempo, flores e amores para quebrar esse silêncio imposto pelo capital, que pode ser entendido também como a arma mais poderosa de um mundo apodrecido por uma força bruta que precisa ser substituída e que, por isso, reage com suas armas: a violência, a guerra, o silenciamento, o horror, a barbárie. O que mais pode deter esse monstro global, senão a delicadeza, a beleza, a paz, a espiritualidade, a arte?
Ao realizar essa obra, Paula toca todas essas questões numa prática imprescindível hoje: criar novas utopias. Nada melhor que a arte para nos fazer imaginar novas realidades. Ela é esse mantra que vibra novas energias e, quiçá, um dia não muito distante, nos traga um planeta mais afetivo, pacífico e delicado, invocando aqui Pachamama, nossa grande Mãe Terra, com sua força desaguando em um planeta mulher, uma terra com mais verdade.