Aquilo que compõe e se esfacela
Galeria Lica Pedrosa, São Paulo
2024

Curadoria: Theo Monteiro

A poética de Paula Parisot vem carregada de uma profunda contradição. Contradição essa que, de antemão, poderia inviabilizar qualquer processo. Mas não é o que acontece por aqui. Pelo contrário: a artista em questão habita poeticamente esse lugar. E, por habitar uma zona conflituosa (no sentido existencial do termo), acaba se recusando a rótulos comuns hoje em dia. Por exemplo, uma de suas linguagens é a escrita. Autora de romances, não pode ser restrita à atividade de escritora. Aristóteles dizia que a literatura: “é a arte que imita (a vida) pela palavra”. De fato, nossa artista mimetiza também pela palavra, mas não só. Como alguém interessada no gênero humano como um todo, ela sabe que não somos compostos apenas de palavras. Existe uma vida de símbolos e signos que nos constroem, e é deles que ela vai atrás.
Lançada em uma profusão de linguagens, Parisot parece estar sempre atrás de algo primordial, que a compõe, que nos constrói, que faz com que tenhamos o mais básico fundamento. E seus trabalhos mostram exatamente isso. A série Infância, por exemplo, consiste em um conjunto de telas que retratam uma atmosfera branca, quase fantasmagórica. A bruma leitosa que toma praticamente toda a composição dilui as formas ali presentes, que se tornam borrões de grafite, gestos apagados já muito esmaecidos, a tal ponto de serem indistinguíveis. Nesse cenário por onde a luz entra filtrada por uma nebulosidade branca muito espessa, a única coisa que se sobressai são alguns pequenos bordados, que criam formas geométricas básicas ou construções geométricas simples e abstratas, que, em vermelho, se projetam para a frente.
O título dessa sequência alude a uma fase do desenvolvimento do indivíduo absolutamente nevrálgica para a construção da personalidade. Falar de nossa infância é revisitar estruturas muito antigas. Ao falar de algo tão essencial, contudo, entra em cena uma inquietante fragilidade. Os borrões esmaecidos de grafite que escorrem pela composição parecem evocar vínculos entre si, mas não se pode vê-los com exatidão. Eles parecem se esvair, se apagar. Mesmo as formas bordadas são muito pequenas. São configurações imprecisas, fugidias. Talvez evoquem algo que já a muito desapareceu. Ou o contrário: algo que parece, ainda que muito embrionariamente, se consolidar. Não sabemos se estamos diante de um fim inevitável ou do nascimento de algo. Mas existe um jogo de forças que se processa, dado que, mesmo diante do “nada”, os elementos teimam em deixar seus rastros.
A série Tessitura, numa primeira mirada, parece aludir a uma matéria morta. Feitos de tecidos sobrepostos e costurados, mas diferentes entre si, são unidos em uma configuração algo improvisada e precária. De aparência rugosa e pigmentação descontínua, se assemelham a uma espécie de pele ou couraça. Os formatos aludem a formas orgânicas, sendo ora amebóides, ora com aparência de “linguas”. Um olhar atento permite que se vejam as costuras que mantém o todo coeso. A feição orgânica faz com que pareça que estamos olhando algo vivo, que a qualquer momento pode emergir.
Eis a contradição de Parisot: ainda que fale de algo muito essencial a todos nós, esse algo não tem solidez nem forma imediata: é fugidio, mole, instável. Às coisas que representa raramente chegam a se transformar em objetos reconhecíveis, na maior parte das vezes apenas fazem alusões. Mas, mesmo assim, continuam compondo e sendo importantes. A ameaça do colapso e do esfacelamento não parecem suficientes para apagar ou desfazer laços e ligações primevos.
A matéria de nossa artista compõe e se esfacela, satura e esmaece, ergue mas tende ao chão. É precisamente a partir dessa fenda, dessa contradição existencial, que Paula Parisot nos dá pistas sobre o mundo que habitamos.