A crucigramista
Sesc Vila Mariana, São Paulo, Brasil
2019

(Este texto foi publicado no âmbito do Seminário Internacional Contra o Cânone. Arte, feminismo(s) e ativismos nos séculos XVIII a XXI. Bienal Mercosul 12 – 2020.)
Entre 2016 e 2019, Jessica Mitrani e Paula Parisot criaram A Crucigramista, um projeto para televisão dirigido por Jessica Mitrani e escrito em colaboração com Paula Parisot, comissionado pelo canal ARTE1 no Brasil. As duas séries – América Invertida e América Feminilizada – apresentam o trabalho de mais de duzentos artistas latino-americanos.
Em 2015, o canal cultural ARTE1 do Brasil nos convidou para fazer um programa que abordasse a produção artística latino-americana de forma interdisciplinar, mostrando diferentes formas de expressão artística: literatura, cinema, artes visuais e performance.
Qual é a diferença entre a televisão de hoje e a televisão quando não havia internet? Afinal, com a tecnologia atual temos acesso imediato a todos os tipos de informação em diversos formatos. Então nos perguntamos: como criar uma série que ofereça muitas referências – espécies de hiperlinks – para que o espectador interessado possa buscar por conta própria outras ferramentas para aprofundar-se nos temas mencionados?
A Crucigramista foi concebida com um formato educativo concentrado, por tratar-se de episódios breves, de 7 minutos. A estrutura dos vídeos de A Crucigramista baseia-se em um jogo de palavras cruzadas. A apresentadora dá uma pista. A palavra aparece no jogo de palavras cruzadas. Cada palavra é um segmento do programa. Cada vídeo contém 6 palavras.
Levando em conta que somos artistas latino-americanas – uma brasileira, outra colombiana –, imprimimos ao programa nossa forma de ver e pensar a arte na América Latina, sem esquecer o fundamental: além de informar, instigar e provocar os 15 milhões de assinantes do canal ARTE1.
O roteiro é escrito de forma que nós, as autoras, apareçamos no início e contemos algo pessoal ou demos uma opinião em primeira pessoa. O objetivo é deixar evidente que a informação e o conteúdo do programa são subjetivos e parciais.
A primeira temporada se chama América Invertida. Partimos dos seguintes temas: identidade, memória, residência, progresso, emancipação e fronteiras (cada um dos 7 temas é abordado em um episódio). Com humor, a primeira temporada examina ideias que servem de base para a construção e a formação do que seria “uma identidade latino-americana”, subvertendo-as e criando um diálogo entre figuras consagradas e artistas contemporâneos.
A segunda temporada, América Feminilizada, trata de temas relacionados à criatividade e ao feminino na América Latina, utilizando uma pedagogia feminista que busca politizar a partir de uma estética própria. Os 7 vídeos estruturam-se a partir de 7 arquétipos fundamentais para a construção do feminino: virgem, mãe, musa, rainha, visionária, tecelã e SER. Por meio de obras e convidados, questionamos e complexificamos essas imagens, criando associações para ressignificar esses símbolos. A intenção é dar novos significados à história, à memória e aos corpos.
A autorreflexão foi um dos nossos métodos de investigação para a criação de América Feminilizada. Pessoalmente, o feminismo nos deu um vocabulário para nos conhecermos e para sermos coerentes conosco mesmas. Uma busca individual pela própria identidade, que inevitavelmente nos levou a conectar-nos com o legado de artistas e pensadores que ousaram – e seguem ousando – romper com as ideias patriarcais que colocam as mulheres e os corpos feminilizados em um lugar de menos direitos.
Em América Feminilizada, as 6 palavras do crucigrama são substituídas por nomes próprios femininos, já que o sobrenome é patriarcal – vindo do pai ou do marido. Há um segmento chamado Cuidado com os Objetos Domésticos! Trata-se de um intervalo dentro do vídeo no qual se apresentam obras de arte relacionadas ao âmbito doméstico. Ao final, há uma conclusão que é um chamado à ação para o espectador.
América Feminilizada implica dar a um continente um caráter de fêmea. O feminino é um atributo que tem sido subestimado e associado ao frágil, subjugado, explorado. Escolhemos o termo feminilizada para valorizar o princípio feminino como atributo essencial, enfatizando a percepção de que reconhecer e ativar o feminino em cada um de nós é o caminho para a sobrevivência de todos os indivíduos e do planeta.
Nossa intenção foi mostrar o maior número possível de artistas, ativistas, escritorxs, pensadorxs, coletivos de arte, feminismos exclusivamente latino-americanos, tomando como ponto de partida os feminismos de Abya Yala, os feminismos negros e as estatísticas da região, que evidenciam a violência psicológica e física contra as mulheres e corpos feminilizados. Consideramos necessário insistir em uma plataforma para artistas mulheres e corpos feminilizados porque a marginalização da mulher continua ocorrendo no mundo da arte contemporânea, apesar de todo o ativismo feminista artístico ao longo do século XX.
Para nós, o feminismo não é apenas um movimento de um período determinado, nem um feminismo que pretende hierarquizar identidades, mas sim um vocabulário que permite articular a negação dos direitos e a violência do patriarcado contra as mulheres e corpos feminilizados. Acreditamos em um feminismo que inclui mulheres, homens, pessoas não humanas, plantas, animais ou o que quer que cada qual se considere.
A criação desses vídeos foi um caminho de transformação para confrontar a misoginia da sociedade (e a internalizada). Nossa intenção é criar e compartilhar um espaço que questione a ideia do feminino, reconhecendo-nos e dialogando com seres vibrante e vitalmente diferentes, mas igualmente essenciais.