Ano: 2013
Duração: 19 minutos
Parisot com o seu celular ligado filma enquanto se rasteja pelas ruas em ebulição do centro, escaldadas pelo sol e pelo calor. Movendo-se como uma
lagartixa, ela registra tudo o que acontece ao nível
do solo. O ponto de vista, de baixo, à beira da
realidade representa a sua situação de mulher desesperada, que caiu muito baixo em seu equilíbrio
emocional. Sem saber que seu marido estava mortalmente afetado por um tumor cerebral, Parisot, uma recente mãe de gêmeos, vivia o pesadelo doméstico da agressão psicológica, oriundadas alucinações do marido. A performance poderia ser lida como a necessidade de sentir o real com todo o corpo, ainda que o preço fosse lastimálo ou perdê-lo. A artista queimou e abriu chagas em seus braços, pernas e ventre como os penitentes nas brasas da festa de São João…
“Não precisa fazer sacrifício, não. Jesus te ama.
Jesus fez o sacrifício na cruz do Calvário”, se escuta ao fundo.
“Porque Jesus já fez o sacrifício na cruz do
Calvário por você, tá bom? Crê em Jesus e será salvo”, insistia um pregador de rua evangélico, destes que abundam no Brasil. “Deixa eu ungir você”, vociferava.
O óleo produziria o milagre de devolvê-la a fala, Parisot não respondia. Estava muda, estática, imersa em uma dor cada vez mais intensa, “possuída” aos olhos do pastor. “Não sabia porque fazia isso, mas não podia deixar de fazêlo”, disse a artista.
Outro transeunte preocupado perguntou:
“Está tirando foto de quê, Flor? Não fala português…?
Você não fala nada?”
“É arte, cara”, disse o acompanhante.
“É algum trabalho artístico?”, insistiu o jovem.
“Ela não vai responder”, assegura o seu acompanhante.
“Ela só vai ficar filmando a gente…?”
Estes espectadores da performance de Parisot, o
pregador e os jovens “cultos”, são testemunhos
valiosos para a compreensão dos mecanismos
da recepção da arte. Como propôs Umberto Eco,
cada leitor tem a sua própria enciclopédia e aplica-
a à compreensão da ambiguidade da mensagem
estética. Ambos utilizaram enciclopédias diferentes,
mas coincidem na captura do significado
simbólico da ação. Para um em chave religiosa,
para os outros, artística. A performance é uma via
de autoconhecimento para o corpo que a realiza.
Contudo, o espectador desavisado numa ação de
rua espontânea está longe de ter tal compreensão.
Ele necessariamente toma isso como um afastamento
da realidade, do que se espera, o que o
surpreende e põe a sua consciência em xeque. É
ou representa? Esta é a pregunta que evidencia a
ambiguidade própria da mensagem estética e a
reação que toda performance busca do espectador.
Sem saber as motivações do performer, a pobreza,
a marginalidade e a loucura negligenciada nas
ruas dos grandes centros urbanos como São
Paulo, são o contexto para a eficácia desta ação.
Pobres almas desguarnecidas, presas num limbo
concêntrico que as engole e as cospe sem que
ninguém mova um dedo.
María José Herrera, Julho 2021