1 – Em suas obras, parece haver uma exploração profunda das emoções humanas. Como você consegue traduzir experiências emocionais complexas em formas e cores?
Não sei se traduzo experiências emocionais complexas em formas e cores, mas tenho certeza de que o processo — o próprio ato de pintar ou desenhar — é enigmático para quem o realiza. Pintar é um jogo constante, no qual os gestos, a escolha das cores e as decisões formais surgem mais rapidamente a partir de crenças inconscientes e instintivas do que de algo racional e premeditado. É diferente do processo de escrita, onde a linguagem, a estrutura e a sintaxe impõem certa formalidade e lógica que me mantêm mais consciente das minhas escolhas.
Quando me mergulho em uma obra visual, exploro territórios desconhecidos: experimento técnicas, cores e formas em um exercício de tentativa e erro, até sentir confiança suficiente para escolher e ser mais assertiva. Para mim, pintar ou desenhar é uma libertação das restrições da palavra. A cor, como uma linguagem em si, torna-se uma ferramenta para transmitir estados de espírito e vibrações. Cada escolha cromática carrega um significado, transmitindo a intensidade da emoção ou do estado de ânimo que sinto ou desejo comunicar.
2 – Em que se baseia o seu processo e a sua busca criativa?
De uma dor da qual não consigo me desfazer, da minha incompreensão, da minha incapacidade de encontrar lógica. Acho que é por isso a minha obsessão em colocar palavras em tudo: porque o meu desejo é romper a dor com palavras, e também com gestos, desenhos, pinturas e com o meu corpo (quando faço uma performance). Quero rompê-la ou domá-la.
Há algo na minha história familiar ao qual não consigo acessar emocionalmente, como se eu fosse uma árvore e não pudesse distinguir as minhas raízes sob a terra, porque não as reconheço por completo. E isso hoje vai além da infância: inclui as escolhas que fiz ao longo dos anos, as raízes que se misturaram às minhas, o que estudei, os amigos que fiz e que não fiz, os lugares em que vivi, as pessoas com quem me deitei, o homem com quem escolhi me casar e ter filhos, as tragédias que não se pode evitar.
Às vezes penso que muitas das escolhas que fiz são resultado de traumas mal resolvidos e também de uma dificuldade em fazer valer os meus desejos e aceitar as minhas contradições. Tudo isso me provoca uma revolta tão furiosa e enérgica que me coloca em ação — e é a ação, a realização da minha obra, que me faz criar uma união comigo mesma. Mas isso não tem nada a ver com cura, e sim com a busca de coerência comigo mesma.
3 – As suas obras sugerem uma conexão íntima entre o mundo interior e o exterior. Onde encontra o equilíbrio, se é que ele existe, entre expressar as suas experiências pessoais e permitir que o espectador estabeleça o seu próprio vínculo?
Minhas experiências pessoais são o ponto de partida. Como diz o slogan feminista da década de 70: “O pessoal é político”, ou seja, o objetivo é colocar em comum as experiências pessoais com as estruturas sociais e políticas. Ao falar de mim, falo do outro e do mundo no qual estou inserida. O privado e o público, o individual e o coletivo, o mundo interior e o mundo exterior são temas cruciais em tudo o que venho fazendo desde que publiquei meu primeiro livro de contos, A dama da solidão, em 2007. A obra torna-se um espelho onde convergem minhas vivências e as do espectador, criando um espaço no qual emoções e histórias, próprias e alheias, se entrelaçam em constante questionamento.
4 – Existe alguma obra específica que sinta refletir especialmente a sua voz e visão? Se sim, poderia compartilhar mais sobre como se relaciona com ela em um nível pessoal?
Não posso apontar uma obra individual, mas a minha trajetória, desde o início até hoje, tem sido uma viagem através de uma variedade de meios e disciplinas. Meu caminho artístico “formal” começou aos 20 anos, quando iniciei meu mestrado em Belas Artes na The New School University, em Nova York. Naquele período, trabalhei com teatro experimental, e essa abordagem me deu uma base sólida para explorar novas formas de narrativa e comunicação.
Com o tempo, escrevi livros de ficção —contos e romances—, e a literatura foi se fundindo a elementos de performance, vídeo, desenho e pintura. Essa transdisciplinaridade tem sido parte essencial do meu processo criativo. Embora não tenha uma obra específica para destacar, a essência do que faço está em contar histórias —e uma história pode ser um livro, um vídeo, uma fotografia, um desenho ou uma pintura. Sinto que a minha voz foi se moldando ao longo dessas experiências e se reflete na forma como abordo os temas e experimento com diferentes meios.
5 – A arte frequentemente reflete o crescimento e a transformação pessoal. Como percebe que o seu trabalho evoluiu ao longo dos anos e que eventos ou mudanças pessoais influenciaram essa evolução?
A evolução no meu trabalho tem sido um reflexo direto do meu crescimento pessoal e da minha aceitação da natureza mutável e incomensurável da vida. Com o passar dos anos, experimentei uma transformação profunda na forma como me relaciono com a minha própria prática artística. Antes, eu me preocupava excessivamente em me definir de maneira específica, fosse como escritora, artista visual ou outro papel. Essa necessidade de me encaixar em categorias pré-definidas me atormentava e me fazia sentir que não pertencia a lugar algum. Sentia-me marginal —no sentido de estar à margem, sem pares.
Com o tempo, no entanto, aprendi a me permitir explorar diferentes formas de expressão sem me preocupar com rótulos. Passei a entender que o meu lugar é justamente no cruzamento das disciplinas, em um espaço onde não há necessidade de uma definição rígida. Aceitar a mudança —que, no fim das contas, é a única certeza da vida— e permitir-me transformar sem a pressão de caber em uma “categoria específica”.
Hoje, mais do que nunca, vivemos cercados por definições, estatísticas, números e gráficos que buscam medir e quantificar todos os aspectos da nossa existência. Esses indicadores pretendem refletir desde o mais objetivo até o mais abstrato, avaliando tanto o que se considera sucesso quanto o que se percebe como problema. As estatísticas tentam influenciar nossa compreensão sobre o que vai bem ou mal em diferentes dimensões da vida, seja na economia, na saúde mental ou na felicidade individual.
Observamos como tudo ao nosso redor é quantificado: a bolsa de valores é monitorada e avaliada com base em números que sobem e descem; a fome no mundo é medida por estatísticas sobre distribuição de renda ou disponibilidade de alimentos; a depressão e até a felicidade tentam ser traduzidas em escalas e pontuações. Até o bem-estar e a prosperidade de cada indivíduo parecem estar, de alguma forma, atrelados à mesma lógica utilizada para medir o PIB de uma nação.
É nesse contexto que a arte —e aqui não falo do meu trabalho nem da minha transformação pessoal, mas da importância da arte em todas as suas formas— se apresenta como um refúgio fundamental na vida das pessoas. A arte, ao contrário das métricas e dos números que tentam capturar nossa existência complexa, recusa-se a ser quantificada. A arte é o assombro, a beleza, o horror: é intrinsecamente inquantificável.
6 – Ao considerar o legado de Hilma af Klint, como acredita que o seu trabalho atual se alinha com o enfoque dela no arte abstrata? Há aspectos específicos da filosofia de af Klint que considera especialmente relevantes hoje?
Em 2018 fui à Pinacoteca de São Paulo ver a mostra de Hilma af Klint. Na primeira sala estavam As Dez Maiores e… o que mais posso dizer? Que fiquei impactada com a beleza? É pouco. Certamente fiquei surpresa com a minha total ignorância em relação à sua obra até então. Mas talvez isso se explique pelo fato de af Klint não reconhecer suas próprias obras como arte. Ela rompeu com a figuração e, apenas nos últimos anos, passou a ser reconhecida como a artista que deu origem ao movimento da arte abstrata europeia —até entrar na Pinacoteca, eu acreditava que os pioneiros eram dois homens: Kandinsky e Mondrian.
Desde aquela visita, af Klint tornou-se uma referência e inspiração. Saí da mostra com o catálogo porque queria ter em casa, ao alcance das mãos, um livro com imagens em boa qualidade de suas obras, e também saber mais sobre a artista, sua busca e seu compromisso com a exploração da conexão entre o espiritual e o artístico.
Mais além do visível, título da nossa mostra aqui no MacSur, poderia descrever perfeitamente a arte abstrata de af Klint. A totalidade, a unidade que não está facilmente visível no nosso cotidiano, onde os opostos —matéria e espírito, bem e mal— não são contraditórios nem excludentes, onde tudo é soma. Não sei se o que digo faz sentido, mas num mundo que discrimina, rotula e exclui, a sua “filosofia da totalidade” —em que não se é bom ou mau, mas bom e também mau; não se é matéria ou espírito, mas matéria e também espírito; somar, incluir, unir—, se aplicada ao mundo, mudaria muita coisa… ou não?
Quanto ao meu trabalho atual, não sei se poderia dizer que se alinha com a arte abstrata ou com a descomunal obra de af Klint. Eu sigo tentando arrancar raízes debaixo da terra.
7 – A abstração muitas vezes convida a uma exploração interna. Como o ato de criar a afeta pessoalmente e como a sua autoexploração se reflete nas suas obras?
É preciso estar disposto a dar um passeio pelo inferno, pelo purgatório e pelo paraíso.
8 – As suas obras podem ser interpretadas de muitas formas. Como se sente ao entregá-las ao espectador? Que tipo de relação espera que se estabeleça entre o seu trabalho e quem o observa?
Uma obra exposta ao público, ao olhar do outro, é um convite à continuidade e ao diálogo. Meu desejo é que o espectador, a partir das minhas obras, tenha espaço e liberdade para explorar os seus próprios labirintos.
9 – Que legado deseja deixar na história da arte e para as futuras gerações de artistas?
O meu foco principal está na criação e na expressão genuína no momento presente. O meu trabalho é um reflexo da minha própria travessia, uma exploração contínua das minhas emoções, pensamentos e experiências dentro de um determinado espaço de tempo — o meu tempo de vida. O meu desejo é que, através do meu trabalho, alguém se sinta encorajado a questionar, refletir e encontrar sentido naquilo que estiver buscando. E, se eu conseguir ressoar no futuro, ótimo — mas isso não é algo que me preocupe; não penso nisso.